Atraso em cirurgias estaria ligado à falta de médicos anestesistas, que enfrentam problemas para receber salários

Crianças, jovens, adultos e idosos: nenhuma faixa etária escapa do caos instalado na Santa Casa de Campo Grande. Desde a última quinta-feira (29), o Jornal Midiamax recebeu oito relatos de familiares de pacientes e pessoas internadas no hospital angustiados com a espera por cirurgias.
Os procedimentos eletivos estão suspensos porque faltam anestesistas, que passam por atraso salarial há quase 8 meses. Nesta sexta-feira (30), deveria ter sido realizado o pagamento de 3 meses de salários em atraso, no entanto, apenas a quitação de duas parcelas foram realizadas, faltando uma.
A situação comprometeu a capacidade técnica-operacional da Santa Casa e gera atrasos na realização de procedimentos cirúrgicos há meses.
Familiares em desespero
Uma das denúncias, feita por uma mãe que acompanha o filho, relata que pacientes estão morrendo aguardando os procedimentos, inclusive por complicações como infecções e sepse.
“Só nesta semana morreram cinco pessoas aqui por falta de atendimento no centro cirúrgico. O negócio está feio, as pessoas estão morrendo aqui porque eles não estão operando. Não estão operando principalmente os idosos”, relata a mulher.
“Uma moça entrou [no hospital] para operar o dedo por causa da diabetes. Eles deixaram ela 20 dias esperando, o negócio subiu para a perna, teve que amputar a perna. Depois que amputou a perna, ‘deu não sei o que lá’, e a mulher morreu ontem por causa de um dedo”, completa a acompanhante.
Jovem que espera por cirurgia
Jéssica Nobre, de 28 anos, conta que, na família dela, a angústia é pelo irmão, Júlio César de Oliveira Nobre, de 30 anos, que sofreu um acidente grave de trabalho na segunda-feira, dia 26 de janeiro.
“Ele deu entrada no hospital com um corte profundo na mão, com atingimento de tendão, correndo sério risco de perda dos movimentos. Apesar da gravidade do caso, até o momento nenhum médico realizou avaliação adequada da lesão”, denuncia a jovem.
“Durante todos esses dias de internação, a mão permanece apenas com curativo, ainda sangrando, sem qualquer procedimento definitivo, exame específico ou encaminhamento para especialista”, detalha a irmã do paciente.
Ela ainda relata que, sempre que a família entra em contato com o SAC da unidade de saúde, informam “que ‘a solicitação está sendo atendida’, porém as medidas necessárias não são tomadas”, conta Jéssica.
“A situação acaba sendo apenas ‘maquiada’, sem uma solução efetiva”, completa.
Relatos de infecção se avolumam
Michelly de Lima relata que o irmão dela, o funileiro e professor de karatê Ernani Campos de Lima, de 42 anos, ficou 22 dias internado na Santa Casa. O Jornal Midiamax contou a história dele.
Ernani sofreu uma lesão na medula óssea, diagnosticada no dia 1º de janeiro deste ano. Desde então, ficou internado na Santa Casa, onde desenvolveu grave infecção que evoluiu para sepse e, devido à gravidade do quadro, foi transferido para o Hospital São Julião.
“Ele chegou muito mal no São Julião, a gente quase perdeu ele. Foi Deus que nos abençoou com um leito lá”, compartilha Michelly.
Angústia constante
Gislaine de Menezes, de 27 anos, está internada desde o dia 9 de janeiro, após sofrer um acidente de moto e quebrar perto diversos ossos no ombro, braço, punho e dedos. No dia 11 ela passou pela cirurgia nos ombros e dedos, no entanto, o procedimento no punho não pode ser realizado.
As informações passadas a ela são de que poucas salas de cirurgia estão em funcionamento, e falta médico especialista em cirurgia de mão para realizar o procedimento.
“À noite não consigo dormir, me dá crise de ansiedade, e tenho medo de pegar uma infecção, há risco, então não é bom ficar tanto tempo internada”, avalia a paciente.
Apesar da angústia e preocupação, Gislaine faz questão de frisar que os funcionários do hospital se dedicam arduamente aos atendimentos, apesar nos atrasos de pagamento salarial.
“Quero abrir um espaço para elogiar a equipe do trauma, os técnicos, os enfermeiros, médicos. Eles são super cuidadosos, sabe? Se preocupam, sempre estão tão por perto perguntando se precisa de algo. E eu acho que o que estão fazendo com os médicos, nessa questão de pagamento, é desumano também. As pessoas trabalham com amor para, no final, nem estar recebendo por isso”, pontua a paciente.
Idosas sem previsão de cirurgia
Entre os familiares angustiados pela espera e falta de informações está Jéssica, cuja avó, Maria da Conceição, de 83 anos, aguarda por cirurgia no fêmur desde o dia 26 de janeiro.
A família registrou reclamação na ouvidoria do hospital, que informou que a demanda seria “encaminhada para devolutiva dos setores responsáveis, com prazo de resposta de até 48h úteis”. Até hoje nenhum retorno foi concedido.
A mesma situação é enfrentada por outra idosa, de 90 anos, que também precisa de cirurgia no fêmur.
“Ela deu entrada na Santa Casa na terça à noite [dia 27] e está lá desde então sem data pra fazer uma cirurgia”, detalhou Mylena Mathias, neta da paciente.
Na sexta-feira (30), a idosa foi colocada em dieta zero. “Ela passou o dia todo sem comer e nós achamos que ela iria para a cirurgia. Porém, de noite, ela acordou com bastante fome e simplesmente depois de quase 20 horas sem se alimentar eles liberaram ela para comer, colocando novamente à deriva a tão esperada cirurgia”, relata Mylena.
“Eles não têm material para trabalhar e, na quinta-feira (29), na hora que fui fazer a denúncia, me foi dito que ela estava numa fila onde 90 pessoas estão aguardando cirurgia e os médicos estavam operando casos mais urgentes”, completa a neta.
“Pra mim, pra nós que somos da família, é o cúmulo cada segundo em cima daquela cama, sem se movimentar, com uma parte do corpo quebrada. Cada segundo é um a menos no pouco tempo que ela tem ainda para viver do nosso lado!”, desabafa.
Cirurgias ortopédicas são o maior problema
Referência em Mato Grosso do Sul no setor de ortopedia, a Santa Casa a maior parte dos casos de espera é por procedimentos dessa natureza.
Um dos pacientes está internado desde o dia 9 de janeiro, com diagnóstico de fratura no platô tibial, que é a parte de cima da tíbia, o osso da ‘canela’, que compõe a articulação do joelho com o fêmur. No entanto, nenhuma previsão para a cirurgia foi informada à família.
Cirurgia para queimadura
A paciente Lúcia Ramiro, de 55 anos, moradora do bairro Tarumã, em Campo Grande, também está na “lista de espera”. Ela aguarda há cerca de 3 anos por um procedimento reparador devido a uma queimadura de 3º grau.
Apesar de não estar internada na Santa Casa, ela precisa passar pelo procedimento, mas as cirurgias eletivas estão suspensas.
“Eu já fiz uma cirurgia na Santa Casa e estou aguardando a continuidade dela. Eles dizem que meu nome já está na fila do centro cirúrgico, mas sem previsão. Tenho medo deles não darem continuidade”, compartilha.
Pagamento de salários atrasados de médicos deveria ter sido feito na sexta-feira
Ao Jornal Midiamax, neste domingo (1º), o presidente do Sinmed-MS (Sindicato dos Médicos de Mato Grosso do Sul), Marcelo Santana, afirmou que o acordo de pagamento salarial não foi cumprido em sua totalidade.
“Era para terem sido pagos três meses de salário em atraso no mês de janeiro. No entanto, foram pagos somente dois, o terceiro não foi pago”, afirmou.
“A Santa Casa informou que iria pagar agora nesta semana, mas, independentemente disso, nesta segunda-feira (2) vai haver outra reunião, devido à convocação do Ministério Público, onde a Santa Casa vai ter que dar explicações com relação a essa situação. Nós vamos participar dessa reunião”, finalizou.
O que diz a Santa Casa
Esta equipe de reportagem entrou em contato com a Santa Casa de Campo Grande para obter um posicionamento sobre a situação e os relatos de pacientes e familiares. No contato, o Jornal Midiamax também questionou qual o tamanho da fila de espera por cirurgias na unidade de saúde.
Até o fechamento desta reportagem, nenhum retorno foi concedido. O espaço segue aberto.
Fonte: Midiamax.