Vítima registrou queixa em Campo Grande, após prejuízo de R$ 3,6 mil, e alega o mesmo modus operandi

O tal do “voto de confiança” que… nem delegado escapa! Após matéria do Midiamax, mostrando que o sonho dos móveis planejados virou pesadelo e dezenas de moradores registraram queixa, um delegado aposentado esteve na 2ª DP (Delegacia de Polícia), nessa quinta-feira (27), no bairro Monte Castelo, em Campo Grande, denunciando que também foi vítima e teve prejuízo de R$ 3,6 mil.
“Eu fiz um Pix de R$ 3,2 mil e depois outro de R$ 400, que foi o sinal dos armários embutidos da cozinha e gaveteiros para os quartos. Tudo ocorreu em março deste ano. Ele fez o orçamento e disse que, na próxima semana, já começaria. Após este tempo, começaram as desculpas: uma hora era chuva, outra falta de funcionário e depois doença”, relembrou o delegado.

Enquanto isso, dentro de casa, a família já havia retirado e encaixotado os objetos, aguardando a instalação dos armários.
“Foi passando o tempo, aquele estresse todo porque os utensílios da cozinha já tinham sido retirados, e aí eu e minha esposa decidimos contratar outra empresa. Precisei pagar novamente o valor e aí fizeram certinho, do jeito que a gente queria”, comentou.
Após um tempo, o delegado esteve no Procon-MS (Secretaria-Executiva de Orientação e Defesa do Consumidor).
“Foi marcada a audiência, e o sujeito nem foi. Ele tem uma empresa com dois nomes. Quando vi as redes sociais, vi que vários conhecidos conheciam e curtiam o trabalho dele, então, decidi dar um voto de confiança. E, quando conversamos, ele também foi insistente. Mandava mensagem de noite, fim de semana, falando: ‘Vamos fechar o serviço? Vai aumentar o preço do material. E nisso eu dei um voto de confiança”, disse.
O boletim de ocorrência foi registrado por estelionato. A pena varia de 1 a 5 anos de reclusão, além da multa. No caso de reincidência e mais vítimas, pode ser ainda maior.
Mesmo modus operandi
No caso das outras vítimas, o empresário usava desculpas parecidas após a contratação dos serviços e não entregou os produtos, após receber o pagamento das entradas firmadas em contrato.
Uma das vítimas é um especialista fiscal, de 26 anos, que pretendia instalar móveis planejados em seu primeiro apartamento, mas sofreu prejuízo de R$ 1,1 mil. Ele encontrou o empresário por meio da indicação de uma corretora de imóveis e, por isso, jamais imaginou que não teria seus móveis entregues.
O rapaz foi até a Depac (Delegacia de Pronto Atendimento Comunitário) e registrou boletim de ocorrência por estelionato. À polícia, ele explicou que firmou o contrato de uma cozinha planejada com o empresário no dia 6 de setembro, no valor de R$ 4.420, sendo paga uma entrada de R$ 1.105. O restante ele pagaria em três parcelas.
No contrato, ficou combinado que a entrega da cozinha planejada seria feita no dia 9 de outubro, mas não foi bem assim. Os móveis não chegaram e, então, o especialista fiscal não efetuou os pagamentos, mas passou a procurar pelo empresário.
Problemas de saúde

Em uma das tentativas de contato, o rapaz relatou que o empresário alegou problemas de saúde. Ele falou que estava no hospital com um familiar, marceneiro-chefe, e precisava de um prazo de 15 dias para providenciar uma notificação; porém, os dias se passaram, e o dinheiro ainda não foi devolvido, tampouco os móveis foram entregues.
“Sem ele [familiar], as coisas estão todas enroscadas, estou atrasado com você faz dez dias. A gente tem uma tolerância de 30 dias no contrato quando estamos conversando, depois tem outra. Aí já vou te dar o desconto da multa, qualquer coisa, para você pagar com o desconto na entrega. Só deixa eu terminar certinho, estou cumprindo coisas que estavam atrasadas também…”, alegou o empresário, quando procurado pelo cliente.
“São três versões, sendo uma que o padrasto que era responsável por fazer os móveis e ele estava no hospital; outra que ele mesmo estava no hospital, e a última que a mãe dele tinha uma doença e ele ficava com ela”, acrescentou a vítima.
Rapaz ligou para a polícia na frente do empresário
Diante do suposto golpe, o especialista fiscal procurou mais informações da empresa de móveis planejados e encontrou diversas reclamações nas redes sociais. Ele, inclusive, conversou com outras vítimas que relataram situações semelhantes e só conseguiram a devolução do dinheiro indo no endereço do empresário.
“Fiz isso… consegui achar ele, fiquei o dia todo de tocaia esperando ele no endereço da empresa, até que ele apareceu querendo conversar comigo de boa. Liguei para a polícia na frente dele, ele disse que ia resolver e devolver o dinheiro hoje, o policial até perguntou durante a ligação ‘Por que você não devolve hoje?’. Ele disse que não tinha, mas hoje ia resolver”, revelou o rapaz ao Jornal Midiamax.
Nas redes sociais, a empresa de móveis planejados afirma que trabalha no ramo desde 2010. “Imagina o tanto de gente que não levou golpe?! Porque, antes, o pessoal não abria ‘Reclame Aqui’ ou fazia postagem em Facebook”, questionou a vítima.
À reportagem, o especialista fiscal relatou que a cozinha planejada contratada seria para o seu primeiro apartamento. “É um sonho, né… venho de família humilde, comprar o apartamento sozinho já é uma realização, e ainda colocar móveis planejados nele. Acho que essas coisas deixam a gente cego e é nessa hora que o golpista vê a oportunidade. [Sentimento de] frustração. É algo desgastante. Como disse, fiquei sexta a manhã toda e o início da tarde para achar esse cara. Porque, se depender da Justiça, eu nunca vou receber esse dinheiro, aí perdi parte da manhã no trabalho para fazer isso”, lamentou.
Casal pede indenização de R$ 20 mil
Além disso, o fato que chama atenção dos clientes é que o nome existente no contrato do serviço é de uma mulher. O Jornal Midiamax apurou que existem diversos processos contra ela, juntamente com o empresário, no Poder Judiciário de Mato Grosso do Sul. Um deles é uma ação de rescisão contratual com restituição de valores, indenização por danos morais e pedido de tutela antecipada.
Na ocasião, um casal contratou, em agosto do ano passado, a instalação de móveis planejados por R$ 12 mil, sendo R$ 3 mil pagos em dinheiro e R$ 3 mil em cartão de crédito, em 18 parcelas. O restante do valor seria pago ao final, com a entrega dos móveis.
Contudo, os móveis nunca foram entregues, os valores pagos em cartão de crédito continuaram sendo descontados na fatura, e o casal entrou com ação judicial no último dia 17. As vítimas pedem indenização e R$ 20 mil, sendo R$ 10 mil cada um; devolução dos valores pagos; tutela de urgência e condenação ao pagamento da multa contratual, se prevista em contrato.
Outras vítimas

No site Reclame Aqui, existem reclamações há seis anos, sendo a última no dia 18 deste mês, referente a um contrato firmado em setembro. Em seu relato, a vítima explicou que firmou um contrato para instalação de um armário planejado, cujo prazo de entrega era de 30 dias. Entretanto, o armário nunca foi entregue.
“Realizei o pagamento do valor acordado. No entanto, até hoje o armário não foi entregue, e a empresa não apresenta solução concreta, apenas promessas que não são cumpridas. Já tentei contato por WhatsApp, telefone, mas não obtive nenhum retorno”, falou.
Antes disso, no dia 28 de outubro, uma pessoa comentou que comprou móveis planejados com a mesma empresa e nunca recebeu o produto. Segundo ela, o fato de o empresário atuar com diferentes CNPJs e nomes de fachada já levanta uma confusão e atitude suspeita.
“O * constantemente faz promessas [Editado pelo Reclame Aqui], marcando novas datas de entrega que nunca são cumpridas. A cada nova conversa, ele alega imprevistos e pede mais prazo, mas nada é resolvido. Infelizmente, já percebo que fui vítima de um [Editado pelo Reclame Aqui], pois o comportamento da empresa demonstra [Editado pelo Reclame Aqui] e falta total de comprometimento com o consumidor. Exijo o cumprimento imediato do contrato ou o estorno integral do valor pago, e deixo aqui meu alerta para que outras pessoas não passem pelo mesmo prejuízo e frustração”, comentou.
Também, há uma publicação reclamando do mesmo problema no início de agosto no grupo “Aonde não ir em Campo Grande-MS” no Facebook. A publicação teve diversos comentários de pessoas que passaram pela mesma situação com o empresário. No caso em questão, a vítima fechou contrato de uma cozinha planejada em janeiro, com entrega em março, mas não recebeu os móveis.
O que diz o empresário?
Perante a denúncia recebida pela reportagem, o Jornal Midiamax acionou o empresário, que admitiu o atraso das entregas alegando motivos de saúde envolvendo parentes, problemas com mão de obra e questões familiares.
“O que está sendo resolvido é que estão sendo vendidas máquinas e fábrica, tanto para estornar quanto para entregar móvel de quem aceitar. Peço que se puder nos dar 20 dias estaremos te mandando baixa de todos, etc… Reclamações de 2019 com certeza foram resolvidas e estornadas, mas como não mexemos no site, nunca nos atentamos em pedir baixa”, defendeu o empresário.
Por fim, em nota enviada à reportagem por meio de sua advogada, o empresário acrescentou: “Reforço que não estamos nos negando a prestar informações, ao contrário — estamos colaborando enquanto reorganizamos a empresa durante um período extremamente crítico.”
Fonte: Midiamax.