Polícia

Esquema no Hospital de Sidrolândia: R$ 10 milhões da saúde foram desviados em propina via Pix

Relatório do Gaeco detalha pagamentos de quase R$ 9,8 milhões a duas empresas e transferências de valores a políticos, servidores e dirigentes investigados.

Foto: Reprodução

Uma investigação do Ministério Público de Mato Grosso do Sul (MPMS), por meio do Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado (Gaeco), identificou transferências bancárias de empresas que receberam quase R$ 10 milhões do Hospital Municipal Beneficente Elmíria Silvério Barbosa, em Sidrolândia. O relatório integra a Operação Dirty Pix, que apura suspeitas de desvio de mais de R$ 18 milhões em recursos destinados à saúde pública.

Segundo os investigadores, duas empresas sediadas em Manaus (AM), a Farma Medical e a NSR Comércio, relacionada à marca Pharbox, receberam juntas R$ 9.786.470,13 (nove milhões, setecentos e oitenta e seis mil, quatrocentos e setenta reais e treze centavos) do hospital. A perícia identificou repasses a pessoas investigadas, mas o valor total pago às empresas não deve ser confundido com o montante comprovadamente distribuído como propina.

O caminho do Pix passava por empresas de Manaus

Organograma elaborado pelo Ministério Público revela o caminho da propina, começando pelo convênio público e terminando nas mãos de investigados. (Reprodução)

A operação levou à prisão preventiva de três investigados: Jacob Meeuwis Breure, então presidente do hospital; Cristina Rosa Gomes de Carvalho, policial civil; e Júlio César Alves da Silva, ex-assessor político.

Também foram afastados dos cargos os secretários municipais Enelvo Júnior, de Desenvolvimento Econômico, e Cleyton Teixeira, de Agricultura, além dos vereadores Cledinaldo Cotócio (PSDB), Adavilton Brandão (MDB) e Izaqueu Diniz (PSD).

Empresas receberam recursos do hospital

Entre outubro e dezembro de 2022, a Farma Medical recebeu R$ 3.562.878,43 (três milhões, quinhentos e sessenta e dois mil, oitocentos e setenta e oito reais e quarenta e três centavos) da entidade responsável pelo hospital. No mesmo período, a empresa transferiu R$ 625 mil (seiscentos e vinte e cinco mil reais) a pessoas investigadas.

Entre os destinatários identificados no relatório estão:

  • Júlio César Alves da Silva: R$ 390 mil (trezentos e noventa mil reais);
  • Julia Carla Nascimento: R$ 100 mil (cem mil reais);
  • Adriele Nogueira Trelha, diretora administrativa: R$ 90 mil (noventa mil reais);
  • Cledinaldo Cotócio, vereador: R$ 25 mil (vinte e cinco mil reais);
  • Cleyton Teixeira, secretário municipal: R$ 20 mil (vinte mil reais).

A segunda empresa, a NSR Comércio, relacionada à marca Pharbox, recebeu R$ 6.223.591,70 (seis milhões, duzentos e vinte e três mil, quinhentos e noventa e um reais e setenta centavos) do hospital. Desse valor, transferiu R$ 257,5 mil (duzentos e cinquenta e sete mil e quinhentos reais) para Júlio César e R$ 100 mil (cem mil reais) para Adriele.

Somados, os repasses individualizados das duas empresas descritos no material chegam a R$ 982,5 mil (novecentos e oitenta e dois mil e quinhentos reais). O montante corresponde às transferências detalhadas, não ao total de recursos pagos às empresas nem, necessariamente, à totalidade dos valores que teriam sido desviados.

Segundo a perícia, houve fracionamento de operações, saques e transferências via Pix que, conforme a investigação, podem ter dificultado o rastreamento da origem e do destino dos recursos.

Movimentações milionárias chamaram atenção

Os dados bancários apontaram diferenças entre os salários declarados e os valores movimentados por alguns investigados.

Júlio César, que recebia salário mensal de aproximadamente R$ 4,1 mil (quatro mil e cem reais) como assessor político, movimentou R$ 2,4 milhões (dois milhões e quatrocentos mil reais) entre setembro de 2022 e janeiro de 2023. O relatório aponta que ele recebeu R$ 390 mil da Farma Medical e R$ 257,5 mil da Pharbox, além de outras transferências. No mesmo período, teria repassado R$ 303 mil (trezentos e três mil reais) a outros investigados.

Adriele Nogueira Trelha, que recebia cerca de R$ 1,5 mil (mil e quinhentos reais) mensais como diretora administrativa, movimentou R$ 1,4 milhão (um milhão e quatrocentos mil reais) no mesmo intervalo, conforme os dados bancários analisados.

Já Jacob Meeuwis Breure movimentou R$ 42.856.122,83 (quarenta e dois milhões, oitocentos e cinquenta e seis mil, cento e vinte e dois reais e oitenta e três centavos) entre setembro de 2022 e janeiro de 2023. Segundo o relatório, foram R$ 20,9 milhões (vinte milhões e novecentos mil reais) em entradas e R$ 21,9 milhões (vinte e um milhões e novecentos mil reais) em saídas.

A perícia também identificou uma transferência de R$ 70 mil (setenta mil reais) feita por Adriele diretamente para a conta de Jacob. Os investigadores analisam as operações no contexto da suspeita de repasses envolvendo recursos destinados à saúde municipal.

Investigação apura suspeitas de corrupção e lavagem de dinheiro

A Operação Dirty Pix apura possível desvio de recursos públicos, pagamento de propina e lavagem de dinheiro relacionados ao hospital de Sidrolândia. Os valores movimentados nas contas não representam, necessariamente, dinheiro desviado, pois podem incluir transferências entre contas e operações já contabilizadas em outras etapas do fluxo financeiro.

Os citados são investigados, e os apontamentos do relatório não equivalem a condenação definitiva. A responsabilização criminal depende do andamento do processo e da análise judicial das provas, com garantia do contraditório e da ampla defesa.

Fonte: Mídia MS.

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