Transparência

Novo secretário de saúde acusa falta de transparência na gestão da Santa Casa e cobra MPMS

Vilela reassumiu comando da pasta após exigir apoio na reestruturação da saúde municipal. Ele recebeu o Jornal Midiamax para entrevista

Marcelo Vilela, secretário de Saúde de Campo Grande, retorna à pasta com a missão de reestruturação. (Foto: Leonardo de França/Jornal Midiamax)

O novo secretário de Saúde de Campo Grande, Marcelo Vilela (PP), assumiu a pasta com o desafio de reorganizar a rede municipal e solucionar os impasses crônicos na relação com a Santa Casa de Campo Grande.

Em entrevista ao Jornal Midiamax, nesta manhã (16), o gestor destacou a necessidade de maior transparência na administração financeira do hospital e confirmou o alinhamento com o Governo do Estado e o Ministério da Saúde como estratégia central para enfrentar o subfinanciamento do setor.

ASSISTA À ENTREVISTA COMPLETA AO FINAL DA MATÉRIA ⬇️

Vilela retorna ao cargo após aceitar o convite da prefeita Adriane Lopes (PP), com quem já havia compartilhado a gestão passada, período em que a atual chefe do Executivo ocupava cargo de vice-prefeita. A articulação iniciou em novembro, mas antes do “sim” definitivo, o médico urologista exigiu apoio político.

“Eu tava relutando, porque eu preciso de apoio, principalmente o apoio político. E o governador e o secretário de Estado também entraram com convencimento, falaram que iam me dar ajuda”, afirmou.

Segundo o secretário, a gestão municipal estava “desalinhada com o Estado totalmente” e apresentava desorganização no aspecto de liderança técnica.

Crise na Santa Casa

Um dos pontos mais críticos abordados pelo secretário é a situação da Santa Casa, que enfrenta colapso financeiro, atrasos salariais de médicos e enfermeiros, e redução de serviços.

Marcelo Vilela apontou que, embora o município realize os repasses contratuais, a gestão interna do hospital carece de clareza quanto ao uso dos recursos. Recentemente, a Prefeitura repassou R$ 41 milhões à instituição, mas o pagamento aos médicos não foi efetuado.

“Eu preciso de transparência. Você recebeu 41 milhões, o que você fez com esses 41 milhões?”, questionou o secretário. Ele admitiu que a Sesau (Secretaria Municipal de Saúde) possui limitações legais para auditar a economia interna da entidade filantrópica.

“Eu reconheço isso [a falta de transparência]. Eles falam que têm transparência, entendeu? Mas eu não tenho uma auditoria que fala, realmente: eles estão fazendo isso com dinheiro. Faz isso e falta dinheiro.”

Para tentar resolver o impasse, o secretário revelou que o Governo do Estado deve contratar uma auditoria externa ainda em 2026. Além disso, uma comissão bipartida entre Estado e município revisará a contratualização dos serviços de média e alta complexidade oferecidos pelo hospital.

Entre os efeitos da crise financeira na unidade, está o atraso de salários e pagamentos dos profissionais que realizam a assistência aos pacientes. Recentemente, as equipes de enfermagem deflagraram greve parcial, que só foi encerrada após pagamento dos valores pendentes.

Já os médicos atuantes na unidade seguem com pagamentos atrasados. Um acordo havia estabelecido a destinação do recurso, retomando serviços especializados interrompidos, mas a Santa Casa não cumpriu o prazo firmado. Contudo, médicos da Santa Casa de Campo Grande aceitaram esperar o pagamento das duas parcelas atrasadas até o dia 30. Elas são referentes à quitação de janeiro. Ao todo, são seis meses de pagamento em atraso, que foram divididos para pagamento nos próximos três meses.

Regulação e demanda por leitos

O secretário informou que a integração dos sistemas de regulação entre município e Estado, paralisada nos últimos três anos, foi retomada nesta semana. O objetivo é organizar a fila de espera, que atualmente registra uma média de 160 pacientes aguardando vagas de média complexidade em Campo Grande.

Vilela destacou que a Santa Casa, historicamente utilizada como o principal suporte para evitar a construção de novos hospitais, hoje apresenta dificuldades para cumprir as metas de atendimento.

“A alta complexidade aqui em Mato Grosso do SUS é feita na Santa Casa. São as cirurgias mais complexas, mais difíceis, com próteses, e ela não consegue cumprir o que a gente pede”, explicou.

Financiamento e aplicação de emendas

Sobre o orçamento da saúde, fixado em R$ 2,1 bilhões, Vilela reiterou que os valores são insuficientes diante da demanda municipalista.

Ele explicou que, embora a lei exija a aplicação de 15% da arrecadação municipal em saúde, a média real para manter o sistema gira entre 28% e 30%.

Como reforço imediato, o secretário aguarda o recebimento de uma emenda de R$ 20 milhões destinada pela senadora Tereza Cristina. O recurso será utilizado para custeio e aquisição de medicamentos, mas a utilização depende de aprovação da CIB (Comissão Intergestores Bipartite).

“Se eu utilizo sem esse processo ordinário, dá problema administrativo no meu CPF. O que eu tenho que fazer como gestor é cobrar a celeridade”, concluiu.

Secretário cobra ação do MPMS

Em reunião com o MPMS (Ministério Público de Mato Grosso do Sul), Marcelo afirmou ter cobrado mais transparência na unidade hospitalar.

Ele apontou à reportagem que não tem autonomia para intervir na gestão dos recursos, e que cabe aos membros do órgão fiscalizador atuarem para garantir que o recurso seja aplicado de modo a garantir o serviço alinhado às necessidades da população.

“Quem tem essa autonomia pra fiscalizar eles é o próprio Ministério Público, através de uma promotoria, entendeu? Que vê as instituições filantrópicas. Então, a gente não tem essa governabilidade. Eu falei isso no Ministério Público, eu preciso de transparência”, afirmou.

A reportagem acionou a Santa Casa para comentar o apontamento do secretário e aguarda retorno para atualização da matéria.

Imagens: Leonardo de França | Edição: Luciana Nantes / Midiamax

Fonte: Midiamax.

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